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Juntando os pedaços

Juntando os pedaços

A gente tá longe de ser blog sensacionalista que gosta de explorar a dor alheia. Então que fique claro que o objetivo deste texto não é dramatizar nem vitimizar, mas sim, promover uma conversa sobre perdas. Neste mês em que tanto falamos sobre o luto, achamos importante tirar um pouco do estigma da morte - sim, ela é triste, é pesada e quase nunca bem-vinda. Mas ela faz parte do nosso ciclo, ela é inevitável, e nós podemos sim conversar sobre ela.

Conversando com diversas pessoas sobre suas perdas eu me deparei com uma história que me marcou muito - pela tristeza dos fatos, sim, mas também pela força da pessoa que viveu essa perda e pela serenidade e grandeza com a qual ela consegue relatar sua história. Ela preferiu ficar no anonimato, mas posso garantir que ela não apenas sobreviveu como conseguiu fazer da dor uma...vou chamar de sócia...em um dos mais belos empreendimentos da sua vida.

"Perdi minha filha mais velha quando ela estava para fazer 7 anos. Essa categoria de perda é destacada de todas as outras, não há como descrever a dor, o sentimento, as culpas, a desolação, a solidão, a impotência, o fracasso, nada se compara à perda de um filho, nada.

Os momentos antes da morte dela fora devastadores. O ápice foi o ato mais difícil de minha vida: fui levada a permitir que ela morresse e comunicar isso a ela em seu leito na UTI. Isso para evitar uma vida de absoluta miséria física para ela própria. Eu nunca mais fui capaz de um ato tão, mas tão altruísta com ninguém. Foi muito difícil abrir mão da luta pela permanência física dela aqui neste plano. Muito. O mesmo acidente de carro que matou minha filha, matou meu marido. Anos de cumplicidade e amor extintos num piscar de olhos.

A sensação é de abandono, quase que uma traição mesmo.

O que se seguiu à morte deles também foi devastador. Total e absoluta desestruturação emocional e psíquica de minha pessoa combalida. Família destruída, problemas se acumulando, um filho para criar e eu sem nem vontade de prosseguir. Além daquela vontadinha constante de sentir pena de mim mesma… essa danada da auto piedade que cisma em se “aprochegar”!

Anos depois, já mais refeita, tentei a reconstrução do meu núcleo familiar com um homem maravilhoso. Tudo parecia que ia dar muito certo: homem dedicado, amoroso, casa linda bem estruturada, filho desfrutando da presença masculina em casa… bom, nem tudo eram flores, mas estava bom para mim. Chegando em casa de um dia exaustivo de trabalho me deparo com a cena grotesca do suicídio desse homem. Por que ele se matou? Não sei. Talvez frustração, talvez neurose, talvez depressão, talvez psicose. Está fora de minha alçada obter uma vasta compreensão do que o levou ao suicídio.

O que foi que me ajudou a não sentir a perda de forma tão ruim? Eu senti a perda de forma muito ruim!!! Quis morrer, quis matar, agredi, sofri igual uma desgraçada fia duma parideira, me isolei, me auto sabotei...

O que me ajudou a continuar na caminhada? Não sei ao certo. Não foi fé religiosa, não foi história da carochinha, não foi apoio da família (que sempre rejeitei). Talvez uma “tinhosidade” na minha personalidade que não me deixa simplesmente desistir ou me entregar. E uma nata positividade para encarar a vida.

O que me confortou? Nada. Alías, para não ser tão seca, tive um sonho com minha filha que foi extremamente reconfortador. Nele, ela vinha vestida de branco, se deitava numa maca e me pedia para passar a mão no corpo dela, especialmente na perna, para me certificar de que ela não tinha mais machucados. No sonho, ela me afiançou que não sentia dor e que não sofria e me pediu para parar de desespero. Estranhamente, esse sonho me confortou. Seja pelo aspecto louco da psiquê da gente ou porque, realmente, o sonho foi incrivelmente verídico e eu precisava desse alívio.

O que aprendi… ahhh, isso daria um livro! Aprendi muito, muito. Aprendi que não controlo nada. Aprendi que muita coisa com as quais eu me ocupava (e as vezes ainda me ocupo, oooops, continuei humana) não valem a pena. Aprendi que é útil separar o joio do trigo e dar valor e atenção aquilo que realmente têm relevância. Aprendi a reconhecer (muitas vezes) o que é relevante. Aprendi que pessoas e seus sentimentos são prioridade top. Acho que acima de tudo, aprendi que presto um ENORME desserviço a mim mesma e à humanidade quando sento na poltrona confortável do vitmismo e me regojizo da deliciosa sensação de que sou uma pobre coitada cheia de razão para tanto.

Só isso." 

Há cerca de dois anos, a autora do texto fundou uma ONG na qual ajuda crianças com uma doença rara. Hoje, ela passa a maior parte dos seus dias se dedicando à vida dos outros. Já reparou como mesmo nos lugares mais sombrios algo bom pode nascer? Já ouvi dizer que nós podemos aprender através do amor ou da dor. Eu já li e reli essa história diversas vezes e vou continuar lendo, até que eu entenda um pouco mais sobre as lições que ela divide com a gente. Quem sabe não conseguimos aprender apenas com a parte do amor?

3 segredinhos naturais para apimentar a relação :)

3 segredinhos naturais para apimentar a relação :)

Agenda Cultural_07

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